Sexta-feira, Outubro 30

A caminho das Índias

Estou na Índia. Vim fazer uma turnê com os grandes Yamandu Costa, Rogério Caetano e Danilo Brito. Em breve muitas fotos.

Segunda-feira, Outubro 12

Argentina...

Em março deste ano fui à Argentina, fiquei por lá quinze dias, e foi muito, muito gostoso. Buenos Aires é simplesmente fantástica... eu já conhecia, mas desta vez me apaixonei perdidamente. Cada prédio, nossa. Que arquitetura, escandalosamente linda. Tirei muitas fotos:







Os argentinos são gentis, fui muito, muito bem tratada. E tive encontros maravilhosos. Conheci músicos e pessoas incríveis. Nâo daria pra escrever tudo e todas as emoções que senti. Visitei o Museu Alba, como vcs podem ver abaixo:


Aqui, o cantor Fábio Cadore observa uma obra




Fabio, Roberta, Anita, Sidney e Renata

Que emoção ver de perto um quadro da minha querida Frida Kahlo

Participei de cinco shows ao lado do grande violonista carioca e excepcional ser humano Rogério Souza, do violonista Diego Capaccioli e do grupo de choro argentino Pibes Choros. Pois é, a argentina tem grupos de choro, mais de um. Os Pibes Choros são muito especiais e talentosos. Foi uma delícia trabalhar com eles. Nas fotos abaixo, nosso show na Embaixada do Brasil na Argentina:




Fizemos também show e oficinas no Espaço Greyk:

Meus alunos de pandeiro:


Com o violonista Pepe Luna:


E em La Plata, cidade espetacular - a cada quatro quadras tem uma praça, já imaginaram? Também ministramos oficinas e depois nos apresentamos no gostoso bar La Mulata:
Julia e o gato Tango







Pois bem. Conheci muitos grupos ótimos e reencontrei amigos queridos, como o baixista Willy Gonzalez. Pela minha grande falta de tempo até hoje não pude comentar sobre os discos que trouxe de lá. Vou só fazer uma pequena citação, pra não passar em branco:

* Confesión del viento - Liliana Herrero - Conheci Liliana aqui em SP, num projeto do Arismar do Espírito Santo e da Eni Cunha, há alguns anos. Fiquei apaixonada por ela, que cantora maravilhosa. Infelizmente desta vez na Argentina não consegui encontrá-la. Mas não posso deixar de citar este disco, um dos que mais gosto. Na foto, Liliana, eu e a produtora e amiga querida Eni Cunha. Luis Carlos Borges ao fundo.

* Danzas del Viento - da cantora Marcela Passadore . Ela, na foto aqui comigo, com o pianista Sidney Ferraz, com o baixista Rogério Botter Maio e com o clarinetista argentino mais-que-querido e talentoso Martin

* Trio de Câmara, tangos - de Leo Sujatovich

* Néstor Basurto - La vieja Ausencia - Fui gravar uma faixa no cd do grupo de choro Pibes Choro, no estúdio do Néstor. Descobri que ele era cantor, pedi pra ele me mostrar alguma música dele, e ele me deu este Cd. Que voz belíssimaaaaa. Fiquei encantada. Além de excelente cantor, ele é um grande violonista, e tem um grupo chamado Quinteto Ventarrón, que também tem um CD maravilhoso: Tango & Guitarras.

* Como va Todo - Javier Cohen - passei uma tarde maravilhosa na casa deste violonista, queridos demais.






* Willy Gonzalez trio - Verse Negro - Conheci este baixista maravilhoso em Curitiba em janeiro de 2009, quando demos oficina lá. Pois bem, ele tem vários e lindos discos. Este é apenas um deles. Acho que também já comentei aqui sobre o trabalho dele com a cantora Micaela Vita. O CD é deslumbrante, ela é o máximo, tem uma voz lindíssima, e arrasa mesmo. Produzi um show deles aqui no bar Ao Vivo há uns dois meses. Fiquei estarrecida com a beleza do trabalho dos dois. O público estava seletíssimo, praticamente só músicos: Sergio Assad, Beto Amik, Benjamin Taubkin, Walter Pinheiro, Carla, Mayara Moraes e eu, que participamos do show, etc.





A próxima foto foi no aeroporto, na volta, quando descobri que tinha que pagar uma fortuna de excesso de peso da mala, que estava recheada de vinhos e alfajores da Havana ;-)

Bom, fora tudo isso, fizemos muitos passeios, fomos a muitos shows, festas, etc. Abaixo mais algumas fotos:
Na casa da Anita, amiga querida que nos recebeu de braços abertos:




Com a Diana, pessoa maravilhosa que nos levou por um delicioso tour na noite portenha. Na primeira foto, vejam o escandaloso prato do restaurante Pippo, no Centro (uma espécie de Sujinho aqui de SP ou de Capela do Rio):




Em breve Argentina dois, a missão!

Assim Falou Zaratustra

Um livro para todos e para ninguém

Aos trinta anos apartou-se Zaratustra da sua pátria e do lago da sua pátria, e foi-se até a montanha. Durante dez anos gozou por lá do seu espírito e da sua soledade sem se cansar. Variaram, porém, os seus sentimentos, e uma manhã, erguendo-se com a aurora, pôs-se em frente do sol e falou-lhe deste modo:

“Grande astro! Que seria da tua felicidade se te faltassem aqueles a quem iluminas? Faz dez anos que te abeiras da minha caverna, e, sem mim, sem a minha águia e a minha serpente, haver-te-ias cansado da tua luz e deste caminho.

Nós, porém, esperávamos-te todas as manhãs, tomávamos-te o supérfluo e bemdizíamos-te.

Pois bem: já estou tão enfastiado da minha sabedoria, como a abelha que acumulasse demasiado mel. Necessito mãos que se estendam para mim.

Quisera dar e repartir até que os sábios tornassem a gozar da sua loucura e os pobres da sua riqueza.

Por isso devo descer às profundidades, como tu pela noite, astro exuberante de riqueza quando transpões o mar para levar a tua luz ao mundo inferior.

Eu devo descer, como tu, segundo dizem os homens a quem me quero dirigir.

Abençoa-me, pois, olho afável, que podes ver sem inveja até uma felicidade demasiado grande!

Abençoa a taça que quer transbordar, para que dela manem as douradas águas, levando a todos os lábios o reflexo da tua alegria!

Olha! Esta taça quer de novo esvaziar-se, e Zaratustra quer tornar a ser homem”.

Assim principiou o caso de Zaratustra.
II

Zaratustra desceu sozinho das montanhas sem encontrar ninguém. Ao chegar aos bosques deparou-se-lhe de repente um velho de cabelos brancos que saíra da sua santa cabana para procurar raízes na selva. E o velho falou a Zaratustra desta maneira:

“Este viandante não me é desconhecido: passou por aqui há anos. Chamava-se Zaratustra, mas mudou.

Nesse tempo levava as suas cinzas para a montanha. Quererá levar hoje o seu fogo para os vales? Não terá medo do castigo que se reserva aos incendiários?

Sim; reconheço Zaratustra. O seu olhar, porém, e a sua boca não revelam nenhum enfado. Parece que se dirige para aqui como um bailarino!

Zaratustra mudou, Zaratustra tornou-se menino, Zaratustra está acordado. Que vais fazer agora entre os que dormem?

Como no mar vivias, no isolamento, e o mar te levava. Desgraçado! Queres saltar em terra? Desgraçado! Queres tornar a arrastar tu mesmo o teu corpo?”

Zaratustra respondeu: “Amo os homens”.

“Pois por que — disse o santo — vim eu para a solidão? Não foi por amar demasiadamente os homens?

Agora, amo a Deus; não amo os homens.

O homem é, para mim, coisa sobremaneira incompleta. O amor pelo homem matar-me-ia”.

Zaratustra respondeu: “Falei de amor! Trago uma dádiva aos homens”.

“Nada lhes dês — disse o santo. — Pelo contrário, tira-lhes qualquer coisa e eles logo te ajudarão a levá-la. Nada lhes convirá melhor, de que quanto a ti te convenha.

E se queres dar não lhes dês mais do que uma esmola, e ainda assim espera que tá peçam”.

“Não — respondeu Zaratustra; — eu não dou esmolas. Não sou bastante pobre para isso”.

O santo pôs-se a rir de Zaratustra e falou assim: “Então vê lá como te arranjas para te aceitarem os tesouros. Eles desconfiam dos solitários e não acreditam que tenhamos força para dar.

As nossas passadas soam solitariamente demais nas ruas. E, ao ouvi-las perguntam assim como de noite, quando, deitados nas suas camas, ouvem passar um homem muito antes do alvorecer: Aonde irá o ladrão?

Não vás para os homens! Fica no bosque!

Prefere à deles a companhia dos animais! Por que não queres ser como eu, urso entre os ursos, ave entre as aves?”.

“E que faz o santo no bosque?” — perguntou Zaratustra.

O santo respondeu: “Faço cânticos e canto-os, e quando faço cânticos rio, choro e murmuro.

Assim louvo a Deus.

Com cânticos, lágrimas, risos e murmúrios louvo ao Deus que é meu Deus. Mas, deixa ver: que presente nos trazes?”.

Ao ouvir estas palavras, Zaratustra cumprimentou o santo e disse-lhe: “Que teria eu para vos dar? O que tens a fazer é deixar-me caminhar, correndo, para vos não tirar coisa nenhuma”.

E assim se separaram um do outro, o velho e o homem, rindo como riem duas criaturas.

Quando, porém, Zaratustra se viu só, falou assim, ao seu coração: “Será possível que este santo ancião ainda não ouvisse no seu bosque que Deus já morreu?”
III

Chegando à cidade mais próxima, enterrada nos bosques, Zaratustra encontrou uma grande multidão na praça pública, porque estava anunciado o espetáculo de um bailarino de corda.

E Zaratustra falou assim ao povo:

“Eu vos anuncio o Super-homem”. (1)

“O homem é superável. Que fizestes para o superar?

Até agora todos os seres têm apresentado alguma coisa superior a si mesmos; e vós, quereis o refluxo desse grande fluxo, preferís tornar ao animal, em vez de superar o homem?

Que é o macaco para o homem? Uma irrisão ou uma dolorosa vergonha. Pois é o mesmo que deve ser o homem para Super-homem: uma irrisão ou uma dolorosa vergonha.

Percorrestes o caminho que medeia do verme ao homem, e ainda em vós resta muito do verme. Noutro tempo fostes macaco, e hoje o homem é ainda mais macaco do que todos os macacos.

Mesmo o mais sábio de todos vós não passa de uma mistura híbrida de planta e de fantasma. Acaso vos disse eu que vos torneis planta ou fantasma?

Eu anuncio-vos o Super-homem!

O Super-homem é o sentido da terra. Diga a vossa vontade: seja o Super-homem, o sentido da terra.

Exorto-vos, meus irmãos, a permanecer fiéis à terra e a não acreditar naqueles que vos falam de esperanças supra-terrestres.

São envenenadores, quer o saibam ou não.

São menosprezadores da vida, moribundos que estão, por sua vez, envenenados, seres de quem a terra se encontra fatigada; vão-se por uma vez!

Noutros tempos, blasfemar contra Deus era a maior das blasfêmias; mas Deus morreu, e com ele morreram tais blasfêmias. Agora, o mais espantoso é blasfemar da terra, e ter em maior conta as entranhas do impenetrável do que o sentido da terra.

Noutros tempos a alma olhava o corpo com desdém, e então nada havia superior a esse desdém: queria a alma um corpo fraco, horrível, consumido de fome! Julgava deste modo libertar-se dele e da terra.

Ó! Essa mesma alma era uma alma fraca, horrivel e consumida, e para ela era um deleite a crueldade!

Irmãos meus, dizei-me: que diz o vosso corpo da vossa alma? Não é a vossa alma, pobreza, imundície e conformidade lastimosa?

O homem é um rio turvo. É preciso ser um mar para, sem se toldar, receber um rio turvo.

Pois bem; eu vos anuncio o Super-homem; é ele esse mar; nele se pode abismar o vosso grande menosprezo.

Qual é a maior coisa que vos pode acontecer? Que chegue a hora do grande menosprezo, a hora em que vos enfastie a vossa própria felicidade, de igual forma que a vossa razão e a vossa virtude.

A hora em que digais: “Que importa a minha felicidade! É pobreza, imundície e conformidade lastimosa.

A minha felicidade, porém, deveria justificar a própria existência!”

A hora em que digais: “Que importa minha razão! Anda atrás do saber como o leão atrás do alimento. A minha razão é pobreza, imundície e conformidade lastimosa!”

A hora em que digais: “Que importa a minha virtude? Ainda me não enervou. Como estou farto do meu bem e do meu mal. Tudo isso é pobreza, imundície e conformidade lastimosa!”

A hora em que digais: “Que importa a minha justiça?! Não vejo que eu seja fogo e carvão! O justo, porém, é fogo e carvão!”

A hora em que digais: “Que importa a minha piedade? Não é a piedade a cruz onde se crava aquele que ama os homens? Pois a minha pieda,de é uma crucificação”.

Já falaste assim? Já gritaste assim? Ah! Não vos ter eu ouvido a falar assim!

Não são os vossos pecados, é a vossa parcimônia que clama ao céu! A vossa mesquinhez até no pecado, isso é que clama ao céu!

Onde está, pois, o raio que vos lamba com a sua língua? Onde está o delírio que é mister inocular-vos?

Vede; eu anuncio-vos o Super-homem: “É ele esse raio! É ele esse delírio!”

Assim que Zaratustra disse isto, um da multidão exclamou: “Já ouvimos falar demasiado do que dança na corda; mostrá-no-lo agora”. E toda a gente se riu de Zaratustra. Mas o dançarino da corda, julgando que tais palavras eram com ele, pôs-se a trabalhar.
IV

Entretanto, Zaratustra olhava a multidão, e assombrava-se. Depois falava assim:

“O homem é corda estendida entre o animal e o Super-homem: uma corda sobre um abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar, perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar.

O grande do homem é ele ser uma ponte, e não uma meta; o que se pode amar no homem é ele ser uma passagem e um acabamento (2).

Eu só amo aqueles que sabem viver como que se extinguindo, porque são esses os que atravessam de um para outro lado.

Amo os grandes desdenhosos, porque são os grandes adoradores, as setas do desejo ansiosas pela outra margem.

Amo os que não procuram por detrás das estrelas uma razão para morrer e oferecer-se em sacrifício, mas se sacrificam pela terra, para que a terra pertença um dia ao Super-homem.

Amo o que vive para conhecer, e que quer conhecer, para que um dia viva o Super-homem, porque assim quer o seu acabamento.

Amo o que trabalha e inventa, a fim de exigir uma morada ao Super-homem e preparar para ele a terra, os animais e as plantas, porque assim quer o seu acabamento.

Amo o que ama a sua virtude, porque a virtude é vontade de extinção e uma seta do desejo.

Amo o que não reserva para si uma gota do seu espírito, mas que quer ser inteiramente o espírito da sua virtude, porque assim atravessa a ponte como espírito.

Amo o que faz da sua virtude a sua tendência e o seu destino, pois assim, por sua virtude, quererá viver ainda e deixar de viver.

Amo o que não quer ter demasiadas virtudes. Uma virtude é mais virtude do que duas, porque é mais um nó a que se aferra o destino.

Amo o que prodigaliza a sua alma, o que não quer receber agradecimentos nem restitui, porque dá sempre e se não quer preservar.

Amo o que se envergonha de ver cair o dado a seu favor e que pergunta ao ver tal: “Serei um jogador fraudulento?” porque quer submergir-se.

Amo o que solta palavras de ouro perante as suas obras e cumpre sempre com usura o que promete, porque quer perecer.

Amo o que justifica os vindouros e redime os passados, porque quer que o combatam os presentes.

Amo o que castiga o seu Deus, porque ama o seu Deus, pois a cólera do seu Deus o confundirá.

Amo aquele cuja alma é profunda, mesmo na ferida, e ao que pode aniquilar um leve acidente, porque assim de bom grado passará a ponte.

Amo aquele cuja alma transborda, a ponto de se esquecer de si mesmo e quanto esteja nele, porque assim todas as coisas se farão para sua ruína.

Amo o que tem o espírito e o coração livres, porque assim a sua cabeça apenas serve de entranhas ao seu coração, mas o seu coração, o leva a sucumbir.

Amo todos os que são como gotas pesadas que caem uma a uma da sombria nuvem suspensa sobre os homens, anunciam o relâmpago próximo e desaparecem como anunciadores.

Vede: eu sou um anúncio do raio e uma pesada gota procedente da nuvem; mas este raio chama-se o Super-homem”.
V

Pronunciadas estas palavras, Zaratustra tornou a olhar o povo, e calou-se. “Riem-se — disse o seu coração. — Não me compreendem; a minha boca não é a boca que estes ouvidos necessitam.

Terei que principiar por lhes destruir os ouvidos para que aprendam a ouvir com os olhos? Terei que atroar à maneira de timbales ou de pregadores de Quaresma? Ou só acreditarão nos gagos?

De qualquer coisa se sentem orgulhosos. Como se chama então, isso de que estão orgulhosos? Chama-se civilização: é o que se distingue dos cabreiros.

Isto, porém, não gostam eles de ouvir, porque os ofende a palavra “desdém”.

Falar-lhes-ei, portanto, ao orgulho.

Falar-lhes-ei do mais desprezível que existe, do último homem.

E Zaratustra falava assim ao povo:

“É tempo que o homem tenha um objetivo.

É tempo que o homem cultive o germe da sua mais elevada esperança.

O seu solo é ainda bastante rico, mas será pobre, e nele já não poderá medrar nenhuma árvore alta.

Ai! aproxima-se o tempo em que o homem já não lançará por sobre o homem a seta do seu ardente desejo e em que as cordas do seu arco já não poderão vibrar.

Eu vo-lo digo: é preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante.

Eu vo-lo digo: tendes ainda um caos dentro de vós outros.

Ai! Aproxima-se o tempo em que o homem já não dará a luz às estrelas; aproxima-se o tempo do mais desprezível dos homens, do que já se não pode desprezar a si mesmo.

Olhai! Eu vos mostro o último homem.

Que vem a ser isso de amor, de criação, de ardente desejo, de estrela? — pergunta o último homem, revirando os olhos.

A terra tornar-se-á então mais pequena, e sobre ela andará aos pulos o último homem, que tudo apouca. A sua raça é indestrutível como a da pulga; o último homem é o que vive mais tempo.

“Descobrimos a felicidade” — dizem os últimos homens, e piscam os olhos.

Abandonaram as comarcas onde a vida era rigorosa, porque uma pessoa necessita calor. Ainda se quer ao vizinho e se roçam pelo outro, porque uma pessoa necessita calor.

Enfraquecer e desconfiar parece-lhes pecaminoso; anda-se com cautela. Insensato aquele que ainda tropeça com as pedras e com os homens!

Algum veneno uma vez por outra, é coisa que proporciona agradáveis sonhos. E muitos venenos no fim para morrer agradavelmente.

Trabalha-se ainda porque o trabalho é uma distração; mas faz-se de modo que a distração não debilite.

Já uma pessoa se não torna nem pobre nem rica; são duas coisas demasiado difíceis. Quem quererá ainda governar? Quem quererá ainda obedecer? São duas coisas demasiado custosas.

Nenhum pastor, e só um rebanho! Todos querem o mesmo, todos são iguais: o que pensa de outro modo vai por seu pé para o manicômio.

“Noutro tempo toda a gente era doida” — dizem os perspicazes, e reviram os olhos.

É-se prudente, e está-se a par do que acontece: desta maneira pode-se zombar sem cessar. Questiona-se ainda, mas logo se fazem as pazes; o contrário altera a digestão.

Não falta um pouco de prazer para o dia e um pouco de prazer para a noite; mas respeita-se a saúde.

“Descobrimos a felicidade” — dizem os últimos homens — e reviram os olhos”.

Aqui acabou o primeiro discurso de Zaratustra, — que também se chama preâmbulo — porque neste ponto foi interrompido pelos gritos e pelo alvoroço da multidão. “Dá-nos esse último homem, Zaratustra — exclamaram — torna-nos semelhantes a esses últimos homens! perdoar-te-emos o Super-homem”.

E todo o povo era alegria. Zaratustra entristeceu e disse consigo:

“Não me compreendem; não. Não é da minha boca que estes ouvidos necessitam.

Vivi demais nas montanhas, escutei demais os arroios e as árvores, e agora falo-lhes como um pastor.

A minha alma é sossegada e luminosa como o monte pela manhã; mas eles julgam que sou um frio e astuto chocareiro.

Ei-los olhando-me e rindo-se, e enquanto se riem, continuam a odiar-me. Há gelo nos seus risos”.

Domingo, Agosto 30

mais discões

No mês passado tive o prazer enorme de conhecer a cantora Elisa Paraíso e o violonista Thiago Nunnes, de Belo Horizonte. Gravei com eles e com meu ídalo Toninho Ferragutti o programa Sr. Brasil, que foi ao ar há duas semanas. Pois bem, ela tem dois CDs lançados, o maravilhoso Da Maior Importância e o novíssimo O Nordeste de Lua, um belo tributo a Gonzagão. Amei o trabalho deles, não deixem de conhecer. De seu primeiro disco (adorei a regravação):

Da Maior Importância
(Caetano Veloso)

Foi um pequeno momento, um jeito
Uma coisa assim
Era um movimento que aí você não pôde mais
Gostar de mim direito
Teria sido na praia, medo
Vai ser um erro, uma palavra
A palavra errada
Nada, nada
Basta quase nada
E eu já quase não gosto
E já nem gosto do modo que de repente
Você foi olhada por nós

Porque eu sou tímido e teve um negócio
De você perguntar o meu signo quando não havia
Signo nenhum
Escorpião, sagitário, não sei que lá
Ficou um papo de otário, um papo
Ia sendo bom
É tão difícil, tão simples
Difícil, tão fácil
De repente ser uma coisa tão grande
Da maior importância
Deve haver uma transa qualquer
Pra você e pra mim
Entre nós

E você jogando fora, agora
Vá embora, vá!
Há de haver um jeito qualquer, uma hora!
Há sempre um homem
Para uma mulher
Há dez mulheres para cada um
Uma mulher é sempre uma mulher etc. e tal
E assim como existe disco voador
E o escuro do futuro
Pode haver o que está dependendo
De um pequeno momento puro de amor

Mas você não teve pique e agora
Não sou eu quem vai
Lhe dizer que fique
Você não teve pique
E agora não sou eu quem vai
Lhe dizer que fique
Mas você
Não teve pique
E agora
Não sou eu quem vai
Lhe dizer que fique.


Mulher do Norte
(Makely Ka e Kristoff Silva)

Jamais se submeta a mim
Pois posso lhe escravizar
Não é porque eu seja ruim
É como sei amar

Você não deve permitir
Não deve nunca se entregar
Sempre se atreva a resistir
Sem recuar

Pois eu vou tentar
Vou lhe confundir
Vou fugir
Retornar
Vou me transformar
Me reconciliar

Até você reconhecer
No meu somente o seu prazer
Quando você se perguntar por si e se desconhecer
Não tente me dizer
Isso é com você
Seja forte como um mulher do norte tem que ser
Para sobreviver.

Mané Fogueteiro
(Braguinha)

Mané fogueteiro era o rei das crianças
Na vila distante de Três Corações
Em dia de festa fazia rodinhas
Soltava foguete, soltava balões
Mané Fogueteiro gostava da Rosa
Cabocla mais linda este mundo não tem
Porém o pior é que o Zé Boticário
Gostava um bocado da Rosa também

Um dia encontraram Mané Fogueteiro
De olhos vidrados, de bruços no chão
Um tiro certeiro varava-lhe o peito
De volta da festa do Juca Romão
E como os que morrem de tiro conservam
A última cena nos olhos sem luz
Um claro foguete de lágrimas frias
Alguém viu brilhando em seus olhos azuis.
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Com a especialíssima participação do Guinga, no violão e na voz. Guinga é apaixonado por essas músicas lindas das décadas de 30, 40... Essa gravação me lembrou o dia em que ele foi ao Ó do Borogodó e cantou horas com a gente ali, coisa simplesmente inesquecível. Dá pra ver aqui, aqui e aqui.



Recentemente conheci um excelente flautista/saxofonista canadense chamado Tom Keenlyside. Tenho ouvido muito dois de seus CDs, Altered Laws - Metaphora (com quarteto) e Synergy, em duo com o pianista Miles Black. Ambos muito bonitos.
Na foto, Tom dando uma canja na roda de choro do Izaías do Bandolim com o próprio e os violonistas Giba e Israel.

E um disco que não consigo parar de ouvir - Rancho Carnavalesco Flor do Sereno, lançado pela Acari. Eu adoro marcha-rancho, sou realmente suspeita. Mas o disco tem um timaço de músicos e compositores, arranjos refinados e lindas composições, lindas, lindas. Simplesmente impecável.
Duas das minhas prediletas:

Rancho Novo
(Maurício Carrilho e Paulo Cesar Pinheiro)

Rancho do dia
Rancho da noite
Ranchos já são antigos cordões
Mas os foliões não

As velhas canções são lindas
As novas serão bem-vindas
Até me comovo de ver sangue novo
Fazer nosso povo cantar

Rancho das nunvens
Rancho das flores
Rachos virão
Como os Rouxinóis
Calar sua voz não

Que a marcha de amor
Não finda
Tem gente que faz ainda
E ainda é pequeno
Mas tem rancho novo
É o Flor do Sereno
Cantando pro povo
E em paz.
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Flor da Serenata

(Maurício Carrilho e Paulo Cesar Pinheiro)

Não posso ver um rancho desfilar
Que eu vou atrás
Lembro dos velhos carnavais
A Flor do Resedá, do Ameno
Não morreu pra gente
Só virou Flor do Sereno
E eu vou seguindo os seus metais
E eu vou sonhando...
Até parece que voltaram os tempos
Esses tempos que não voltam mais

Flor do Sereno foi plantada
Pela madrugada
No jardim do coração
Flor do Sereno é flor da serenata
É azul, é verde e prata
No cetim do pavilhão
E a lua provoca amores casuais
Na rua, que os ranchos são sentimentais
E oferta Flor do Sereno a todos os casais
Que vão brincando em paz.
_______________________________
Outros discos deliciosos:

* Ernesto Nazareth por Ronaldo do Bandolim - O grande bandolinista apresenta neste CD quinze músicas desconhecidas do pianista Ernesto Nazareth. Lindo.


* Linha d´água, de Ana Luiza e Luis Felipe Gama - divino! Na página deles no MySpace dá pra ouvir algumas das lindas músicas deste disco. Eles regravaram uma música que eu amo, do Renato Teixeira, que participa da faixa, Amora:

Depois da curva da estrada
Tem um pé de araçá
Sinto vir água nos olhos
Toda vez que passo lá

Sinto o coração flechado
Cercado de solidão
Penso que deve ser doce
A fruta do coração

Vou contar para o seu pai
Que você namora
Vou contar pra sua mãe
Que você me ignora

Vou pintar a minha boca
Do vermelho da amora
Que nasce lá no quintal
Da casa onde você mora.

* Lúdico Navegante, do cantor, violonista e compositor Fabio Cadore - Dono de linda voz, Fabio Cadore é acompanhado em seu primeiro disco por feras como Fabio Torres, Josué dos Santos, Cleber Campos, Rubinho Antunes, etc.


* Saudosismo, de Elaine Guimarães e André Bedurê (gravadora Pôr do Som) - traz músicas de Nelson Cavaquinho, Cartola, Caymmi, etc. Das novas gostei da Vampiro Tupiniquim, da cantora Andréia Dias:

O tempo todo eu fico pensando
O que fazer agora, como e quando começar
A vida inteira vou me perguntando
Quando esta paranóia vai se acabar

Não tenho pressa pra comer o banquete
Se você preferir, passe na frente
Estou cansada de papo furado
Todo mundo tem complexo de Presidente

E uma inclinação…
Astrólogo de plantão
Psicólogo de botequim
Treinador da Seleção
Vampiro Tupiniquim.

* Cara do Brasil, de Celso Viáfora - Adoro esse disco, gosto muito da voz do Viáfora, suas músicas... Este cd só tem fera, só pra citar alguns: Proveta, Guello, Edu Ribeiro, Arismar do Espírito Santo, Juçara Marçal, etcs mil. Várias parcerias de Celso com Vicente Barreto, uma parceria com Guinga:

Di Menor
(Guinga e Celso Viáfora)

Sábado de noite, nenhum canto pra ir
Soube dum forró
Bem perto daqui
Disse: só vai ter balzaca e velho blasé
Tô numa pior
Fui pra conhecer

Logo na calçada deu pra ver que eu errei
A moçadinha não tinha mais que dezesseis
Sei... Sei...
Onde foi que eu parei?
Aquela gatinha tá me olhando por quê?
Não tirou nem o RG
Pode crer...

Meu anjo da guarda se chegou pra dizer
“Ela é di menor
vê o que vai fazer”
Três da madrugada já não dá pra saber:
Ela é de menor
Eu sou de beber
Meu anjo com cara de quem pensa: “sujou...”
Chamei a gata pra dança e a criança topou
“Vou! Vou!”
Foi batendo um calor
Tirou a jaqueta e veio de bustier
O anjo desencanou:
“Vai ferver...”

Viu como não dá pra saber
O que é bom pra ferida?
Se entrasse numas, não tava ali
Feliz da vida
Foi aí que ela viu
O guri que chegou
E quando a pista se abriu
A minha gata gritou
Quer ver dançar forró?
Oi só o tio!
Tio é o fiofó da santa mãe que a pariu!

Auto-Retrato
(Celso Viáfora)

Tenho a Bahia pelo meu parceiro
Rio de Janeiro: o Salgueiro é de lá
O resto é tudo babaquice de bairrista
Eu sou paulista, meu
E vivo em todo lugar
Música, pra mim, é água
Meu Viagra milenar
Nasci com a banda militar na frente
No quarteirão de cima a Tiradentes
Onde rolava o carnaval da gente
E em casa um tio tocando Bach
Moro na maior cidade do Nordeste
O que é que há?

Falar no fole da sanfona agreste
O meu vizinho era o the best, dona
No macarrão dominical da nona
Ficava ouvindo ele tocar

O canto da lavadeira ouvi no Rio Paraná
A velha banda de retreta, puxa!
O som da música gaúcha, eta!
Fui a Belém pelo amigão porreta
Que me ensinou o siriá
Tudo que não tá no sangue
No suingue pode estar
Tá lá no frevo do Capiba
(Beba!)
Tá lá na banda de Ipanema
Viva!
Tá no forró da Paraíba
Eba!
Tá na maneira de escutar.

À Benção
(Celso Viáfora)

À benção o que bate lata no Pelô
À benção o que toca flauta no metrô
À benção o tamborim mirim da Beija-Flor
E o velho bombardino do interior
À benção quem primeiro batucou em algo oco por dentro
À benção quem primeiro tirou música do sopro do vento
À benção quem primeiro conseguiu resumir o sentimento
Na frase musical que pôs no ar
À benção o que salga o couro do tambor
À benção o que funde o ferro do agogô
À benção o operário que faz o motor
Que move a polia que gira o lixador
À benção o ajudante que afia a ponta do estilete
Para o artesão equilibrar o sopro de um clarinete
À benção o carpinteiro que montou a perna do cavalete
Aonde o luthier vai trabalhar

Ô... benção quem suou
Suou pro meu som soar.

* E já que estou falando de Celso Viáfora, vou publicar aqui duas das músicas que mais gosto dele, presentes no CD Palavra, bonitas no úrtimo.

Santo Expedito
(Celso Viáfora)

A vida me fez aprender a não ser infeliz
E isso já é uma forma de felicidade
Se o vento parar eu escuto o que o silêncio diz
Se a chuva apertar eu escuto a tempestade
Espero por aqui
o tempo bom chegar
Sem impedir
Sem empurrar
Não deixo de lutar
Pelo que sempre quis
E quem não quer viver feliz?

Dizer que a minha vida é uma beleza
Beleza, o quê? Beleza, nada...
É só que eu não me caso com a tristeza
Tristeza, não: prefiro a madrugada

Eu sou devoto de Santo Expedito
Quando ninguém crê eu acredito
Ninguém vai lá ver
Eu vou!

Crença

(Celso Viáfora)

A casa do Deus em que acredito
É onde mora Nossa Senhora
Maomé ora com Jesus Cristo
Ao som ancestral dos tambores
Do Congo, do Keto e de Angola
Moisés e Buda colhem flores
Tupã dança para o infinito

Tem Gandhi ensinando amar
Tem hippie fazendo amor
Tem teatro Nô e batuque
Quermesse, kizomba e quarup
Na casa de Deus em que acredito
Tem madres de Calcutá (o-iaiá)
Menininhas de Salvador (a-ioiô)
Martin Luther King e Carlitos
Partes do mesmo monolito
Da casa do Deus em que acredito.
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Terça-feira, Agosto 25

Quem sabe...

(Elton Medeiros e Paulinho da Viola)

Sem nada
Nem no peito qualquer mágoa
Sem rancor e sem saudade
Venho agora te dizer adeus

Quem sabe
Não encontro pela madrugada
Uma esperança vaga
Nos olhos de alguém que também despertou
De um sonho igual ao meu

Quem sabe
Retomando a velha estrada
Eu encontro em outros braços
Aquela ternura que um dia perdi
Dentro dos olhos teus

Toda ilusão se desfaz em mágoas
Mas eu não chorei quando nosso
Romance acabou
É tão difícil a felicidade
Mas eu me sinto à vontade
Pra recomeçar no caminho do amor.
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Não consigo parar de ouvir essa música, estou numa fase totalmente Paulinho da Viola, dia e noite...

Enquanto isso......... ontem recebi um presente da minha amiga Marina Couto. Ela me convidou pra ir à pré-estréia do documentário O Milagre de Santa Luzia, uma lindeza, maravilhoso. Publiquei um texto com detalhes no Samba-choro. Não deixem de assistir, é DIVINO.

Segunda-feira, Agosto 3

Desordem dos Músicos, debate com Lobão na MTV

Na noite da terça-feira, dia 29/07, o deputado Carlos Giannazi, que é coordenador da Frente Parlamentar em Defesa dos Músicos e Compositores do Estado de São Paulo, participou ao vivo do programa “MTV Debate”, apresentado pelo cantor Lobão e que discutiu a Ordem dos Músicos do Brasil e a regulamentação da profissão de músico.

Autor de dois projetos de lei (PL 214/09, que veda a exigência de comprovação de inscrição na OMB e o PL 223/09, que declara o livre exercício da profissão de músico em todo o território do Estado de São Paulo), Giannazi foi incisivo no apoio aos músicos e defendeu, mais de uma vez de forma pública, que a classe não deveria ter a obrigatoriedade de se filiar à OMB para poder exercer a profissão. Ele disse ainda que a OMB tem de respeitar a Lei Estadual 12.547/07, que está em pleno vigor no estado e desobriga o músico a apresentar a carteira da entidade para trabalhar.

O deputado também esclareceu a iniciativa do mandato em protocolar, junto ao Ministério Público Federal no dia 03/06, uma Representação que, acatada pela procuradora-geral Deborah Duprat, foi ingressada no dia 15/07 no STF como uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) visando suspender vários artigos da Lei Federal 3.857/60, que criou a Ordem dos Músicos do Brasil e que hoje estão superados pela Constituição de 1988. Na prática a ação proposta por Giannazi na Justiça vai acabar definitivamente com a obrigatoriedade de filiação e pagamento de anuidade dos músicos a OMB.

O parlamentar criou o Disque-Denúncia na ALESP (11) 3886-6686 para receber todas as denúncias feitas por músicos, compositores, professores de música, escolas e igrejas vítimas do assédio e da truculência da OMB.

No site do deputado é possível ver trechos do debate, ES-PE-TA-CU-LAR!

Quinta-feira, Julho 30

Show Proveta no Auditório Ibirapuera - imperdível

Domingo, Julho 19

Miltinho, o Grande!

Recebi a dica abaixo do meu amigo Thiago França. Pois bem, está no ar, disponível no Portal Curtas, o premiado No Tempo de Miltinho, de André Weller.

Pra quem não sabe: Miltinho, pandeirista e cantor da pesada, foi integrante dos Anjos do Inferno e do Quatro Ases e um Coringa - dentre outros - só para citar dois dos melhores grupos vocais do Brasil. Adoro! E esse curta é uma delícia, não deixem de assistir. André Weller, que iniciativa maravilhosa. Obrigada, parabéns e obrigada!