quinta-feira, novembro 29

Grupo Ó do Borogodó interpreta Altamiro Carrilho

Hoje venho aqui quebrar o silêncio de mais de um mês. Minha vida não está fácil, infelizmente não estou conseguindo manter meu blog como eu gostaria. Peço desculpas a meus poucos porém fiéis leitores.

Escrevo este texto emocionada, pois consegui realizar mais um sonho e mais um projeto, e queria dividir isso com vocês. Acabo de vir da gravadora Lua Discos, fui buscar nosso novo CD, do grupo Ó do Borogodó, Grupo Ó do Borogodó interpreta Altamiro Carrilho. Fresquíssimo, não está nem nas lojas ainda.



Dividi este sonho com o clarinetista Alexandre Ribeiro, com o violonista Lula Gama e com o cavaquinista Ildo Silva, meus companheiros de grupo. E com grandes músicos de samba e choro daqui de SP que participaram como convidados neste CD, todos amigos e ídolos, que vou citar abaixo.

Por que homenageamos Altamiro Carrilho? Trata-se de um projeto e de um sonho meu. Sou apaixonada pelas músicas desse compositor (ele ficou muito famoso como flautista, mas suas composições não alcançaram o merecido sucesso). E conheci boa parte da obra dele na noite paulistana, ouvindo meus amigos Stanley, Zé Barbeiro, Miltinho de Mori, João Macacão etc. Foi uma descoberta muito interessante. Eu nem tocava profissionalmente ainda (estou falando de 1987, 88, 89...); mas como boêmia profissional ficava a noite inteira ouvindo os meninos tocarem. Cada vez que eu me apaixonava por determinado choro e perguntava de quem era ouvia a mesma resposta: Altamiro Carrilho. Lógico. Eu, que já era apaixonada pelo flautista, genial, me apaixonava então pelo compositor, moderníssimo, criativo, sensacional. E fui atrás de toda a obra dele (consegui quase toda). O próprio Altamiro ficou surpreso ao ver que eu tinha mais músicas dele do que ele próprio.



Quando meu amigo Zé Luis Soares convidou o grupo Ó do Borogodó pra gravar um CD (obrigada, Zé!!!), pela gravadora Lua Discos, pensei imediatamente no Altamiro. Por que não reunir essas pérolas num CD só, tributo ao flautista? Aliás, não me conformo que nunca fizeram isso (Há aproximadamente 50 anos, na década de cinquenta, Altamiro teve suas músicas reunidas em um disco de 10 polegadas com o grupo Turma da Gafieira, do qual fazia parte ao lado de Sivuca, Raul de Souza, Baden, etc. Mas nenhum grupo tinha dedicado um disco inteiro a ele até hoje).

Os meninos toparam, Zé Luis achou fantástico, escolhemos as músicas que mais gostávamos dele (com sofrimento, queríamos ter gravado muito mais do que as 14 que estão no cd), e convidei meus "mestres", que me ensinaram não só as músicas do Altamiro como tudo que sei de choro até hoje, pra participar do disco.

Vou fazer aqui então breve comentário faixa por faixa (não na ordem do CD).

Apesar de o solista do nosso grupo ser um clarinetista, aliás, um "senhor" clarinetista, não pude deixar de convidar um dos maiores chorões que conheço, o Stanley Carvalho. Um dos maiores intérpretes que já vi, apaixonado por choro e por música brasileira das décadas de 30 e 40, como eu, Stanley sabe tudo, inclusive do Altamiro. Ele gravou o choro Vida Apertada, e o Ale fez clarone nessa faixa. O Zé Barbeiro, outro grande mestre que sabe tudo também, gravou dois choros: Bem Brasil (música gravada por Altamiro em seu LP de mesmo nome, 1983) e Deixa o Breque pra mim (gravada por Altamiro em 56 e também por Sivuca). Este último choro conheci por intermédio do virtuoso flautista Rodrigo Y Castro, meu companheiro no Grupo Choro Rasgado. Rodrigo é o único que toca essa música na noite paulistana (que eu saiba, lógico!). E, obviamente, fiquei louca por esse choro, o mais animado do disco. Convidei então o Rodrigo, que veio com um arranjo pronto, com uma bateria de escola de samba, e pra isso chamamos seu irmão Rafael (que é um superpercussionista) e o nosso amigo e meu ídolo, mestre do samba, Julio Cesar, percussionista, pra quem não sabe filho de outro mestre: Osvaldinho da Cuíca. É a música que fecha o CD.

O Julião gravou ainda surdo no Esquerdinha na Gafieira, um choro-gafieira animadíssimo, onde recebemos meu querido amigo e grande saxofonista João Poleto. Esse choro tem uma curiosidade: o Altamiro o gravou mais de uma vez. Em 1952 saiu como Esquerdinho na Gafieira. O andamento é mais lento do que a outra gravação dele (de 1978), tem uma batucada no fundo muito legal (e um interessante solo de percussão), e solo e acompanhamento de piano. A terceira parte é diferente do que é normalmente tocada por aí (que foi como nós gravamos). Já a outra gravação, de 78, não tem a terceira parte.

Outros convidados ilustres são os irmãos Izaías (bandolim) e Israel Bueno de Almeida (violão de 7 cordas), brilhantes instrumentistas conhecedores de um repertório infinito de choro. Eles gravaram lindamente a valsa Guaracy (gravada por Altamiro em 1954).

Unanimidade foi a escolha do Baião na Síria (de 1952, Altamiro Carrilho e Ari Duarte, gravada pelo acordeonista Orlando Silveira), que todos nós adoramos. Convidei o Caíto Marcondes (percussão e arranjo de percussão), outro craque, pra participar. Quando escolhemos a música só pensava nele, que toca instrumentos de percussão maravilhosos, exóticos, de todo o tipo. E ele arrasou, ele é um grande pesquisador, preciso descobrir o nome dos instrumentos pra pôr aqui... (são difíceis ;-)

Outra paixão - nossa, como curti essa música quando a conheci - foi o Carioquinhas no Choro, música gravada originalmente pelo grupo Os Carioquinhas (regravada recentemente pelo Grupo 4X0). Nesta faixa não temos nenhum convidado. Nem no Atraente (1949), nem no Elegante. Esta última, um baião, tem solo de cavaquinho do Ildo, que ficou lindo com o clarinete. Foi gravada originalmente por Avena de Castro (na cítara) em 1955.

A outra valsa presente no CD é o Lyra, e nosso convidado foi o grande violonista Ruy Weber, que fez um belo arranjo e um sublime dueto com Lula. Lyra era o nome da mãe de Altamiro. E era também o nome da banda do seu avô, onde Altamiro começou a tocar, a “Banda de Lyra de Arion”.

A proposta era fazer um disco de choro, apenas instrumental. Acontece que não poderia deixar de fora, jamais, num disco com as composições de Altamiro Carrilho, a obra-prima Meu Sonho é Você, dele em parceria com Átila Nunes. Conheci esse samba-canção na voz de João Macacão (violão de 7 cordas e voz), que abriu mão de gravá-lo em seu CD (que está pra sair e traria essa faixa) pra gravar no nosso e ficou demais. Choro ao ouvir João cantando essa música, que foi gravada por Noite Ilustrada, Agnaldo Timóteo e Carmen Costa, Cauby Peixoto, Dick Farney, Nelson Gonçalves, Orlando Correa, Orlando Silva, Ribamar, Rinaldo Calheiros, Turma da Gafieira, A Turma do Sereno, Zezé Gonzaga e Jane Duboc, Chiquinho do Acordeon, Roberto Silva, etc.

E também não poderíamos deixar de convidar para o nosso CD a grande cantora Verônica Ferriani que, na época da gravação, cantava conosco no Ó do Borogodó. Ela gravou lindamente o samba Perdão, Amor (de Altamiro e Sebastião Silvestre, gravado originalmente por Vera Lúcia, em 1952). Participaram também dessa faixa os percussionistas Léo Rodrigues (tamborim) e Cebola (tantã), que também toca com o grupo Ó do Borogodó às segundas no Ó.

Bom, pra terminar gravamos o baião Gracioso (gravado em 1951 por Canhoto e seu regional e também por Sivuca - O Sivuca gravou várias músicas do Altamiro). Nesta faixa recebemos dois convidados igualmente especialíssimos: o mestre da zabumba, do clarinete, do triângulo, do sax e etc., meu querido amigo Zezinho Pitoco (zabumba e triângulo), e um dos meus ídolos no choro, o Bombarda (acordeon). O Bombarda é como o Stanley: um dos chorões que mais me emocionam. Sabe tudo, tudo, tudo de choro. É um deslumbre em seu instrumento.

E, finalmente, a última faixa, Não Resta a Menor Dúvida, que teve a participação especialíssima do nosso homenageado: Altamiro Carrilho (flauta e arranjo). Eu estava com muita vergonha de convidá-lo para o CD, enrolei meses pra ligar pra ele. Primeiro com a desculpa de que não tinha o telefone. Depois minha querida amiga e produtora Mariza Ramos me deu o telefone dele, aí tive que criar coragem e ligar. Qual não foi minha alegria quando ele, simpaticíssimo, topou imediatamente participar do CD. Ele foi supergeneroso, nos cedeu essa música, inédita, e fomos ao Rio pra gravar com ele, que gravou (com o Alexandre) em pouco mais de uma hora. Altamiro é, sem sombra de dúvida, um gênio.

Pra fechar este texto não posso deixar de citar e agradecer os artístas responsáveis pela capa e contra-capa: Mário Tarcitano e Paulo Caruso, que gentilmente também cederam suas obras pra nós. E toda a equipe da Lua Discos (em especial Fernando Vermelho e Vera), que foi sempre muito generosa conosco. E nossos amigos-fotógrafos: Léo Rodrigues, Léo Gola, Marina Couto. Ao Bar Ó do Borogodó, nossa casa, onde o grupo surgiu e onde podemos mostrar nossa arte sempre recebidos com muito carinho.

Curioso citar que Altamiro tem um samba (em parceria com Antônio Almeida, de 1962) chamado Borogodó. Será que ele é vidente? ;-)

Ah, sim. Outra coisa. Daqui a três dias, mais precisamente sexta-feira, Altamiro completará 83 anos. Parabéns e obrigada, mestre!

2 Comments:

Blogger Daniel said...

Adorei o disco, e comentei lá no www.revistamusicabrasileira.com.br.A obra do mestre Altamiro estave merecendo um trabalho como esse.

Beijo!

janeiro 10, 2008 1:34 PM  
Anonymous Anônimo said...

Sou instrumentista. Faço aranjos de ouvido. Sou Padre e gosto muito de acordeon. Gostei muito do comentário sobre o Compositor Altamiro. Gostaria de comprar alguns desses cds.Muito obrigado.

Pe. Neto

março 26, 2008 1:27 PM  

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